15 de junho de 2013

Para a minha avó-mãe, a mais inspiradora do mundo.

 Sabe, eu nunca vi a minha avó-mãe tão feliz. Depois que tivemos uma perda em novembro de 2011, as coisas se desandaram aqui em casa. Recordo que para superar isso, a família precisou se unir, se abraçar, ainda mais com mais força. Minha avó e mais do que isso, minha mãe, deixou de lado muitos de seus medos e voltou a estudar, na quarta série. A mocinha que não entendia as contas de física, que pedia ajuda para os netos, passou a trabalhar voluntariamente e assim, ganhou um novo motivo para acordar pelas manhãs. No mês que vem, essa mulher, a mais linda do mundo, vai se formar no ensino médio. Vocês conseguem imaginar a intensidade do sorriso dela? E aquele brilho nos olhos? Sabe, só quero deixar registrado aqui o tamanho do meu orgulho e do meu amor, pois essa mulher me inspira.

4 de junho de 2013

Memórias de Esquina

Não sei quando, nem onde, mas um dia tropeçaremos numa das calçadas da vida. Você dobrando a esquina, de moletom acinzentado, molhado, com as mãos no bolso. Meu coração querendo pular para fora da boca. Um passeio envergonhado pela cidade nublada. Não sei se deveria dizer, mas demorei para aprender a dormir. Ainda existem dois travesseiros sobre a cama de casal. Prometo não deixar o que sinto atrapalhar esse dia. Eu sei que nosso sonho de casar no quintal, fazer uma cerimônia simples, morar num chalé, nadar na cachoeira, ter um filho, ter outro, adotar mais alguns, ter vários filhos, ajudá-los na lição de casa, viajar em família num trailer e fazer piqueniques aos domingos, se foram junto com os pássaros do último outono... eu entendo. Não vou fazê-lo lembrar do meu sobrenome, ficarei quietinha, te olhando, nem que seja de longe. Tudo bem, já prometi a mim mesma não reagir. Nem irá passar pela minha cabeça a última vez que lhe vi, antes do  seu voo. Seu sorriso ao me ver pela primeira vez. Sua feição no reflexo do espelho fazendo a barba. Seu bilhete na cabeceira da cama. Não vou deixar que isso tudo chegue até você, nem que lhe contamine. Você precisou partir e eu lhe respeitei. Todas as manhãs, quando acordava para trabalhar, sentia falta de lhe observar dormindo e descobrir a intensidade do seu sono através do amassado do lençol. Já me acostumei com o vazio do meu quarto. E com as lembranças oníricas dessas paredes. Perdemos o contato desde aquela estação. Passei a vê-lo batendo asas no céu, livre, respirando sem gaiolas. Lhe desejei felicidade todos os dias da minha vida. Estranho como soube da sua volta... passarem-se tantos anos. Ninguém sabe dos metros de textos que escrevi para você, nem da quantidade de remédios que ingeri. Finalmente você dobrou a esquina, não vestia moletom cinza e seu cabelo estava cortado. Foi bom relembrar o brilho do seu sorriso. Você abraçava a moça dos cabelos longos, sua esposa, e sorria para os seus dois filhos. Sua viagem lhe presenteou. Sorri por você. Não poderia lhe dar tanto. Como nos escritos, cumpri o prometido e não interferi na sua felicidade. Lhe vi dobrar a esquina pela janela do hospital. Estive esperando sua volta, você voltou, eu lhe vi... não foi como a primeira vez, mas não havia mais tempo. Envelheci com os meus sonhos e a minha respiração falha. Fiquei em coma por meses. Decidi que era a minha hora de partir.